sábado, 29 de janeiro de 2011

indignada

e na praça da procissão, possessa por ser porção passou pelas primeiras pessoas pensando pecado.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

mulher

Ela vinha doce, caminhava levada, levando o vento na borda da saia rodada.
Vinha vinho, branco, refrescando a tarde recém findada, confundindo meu paladar.
Vinha nela o que eu via nela. E o que eu via nela? Ah nem sei...
Sei que via, sei que vinha.

adultério

sentiu sem ser sagrado

(secreto sim!)

desespero

minhas unhas já se foram por inteiro

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

pequenices

Vinha de mansinho carregando uma caixa de sapatos cheia de pedrinhas de rio, cada uma com um poder que só a ele cabia. Salvaria o mundo, mataria o gigante que perseguia o povo da montanha, voaria no cavalo com asas rumo a lua pra resgatar sua amada, ligaria os dois mundos em um só criando um buraco no tempo, sopraria o mar pra longe pra descobrir seus tesouros, congelaria os leões pra brincar com seus filhotes.

Tudo isso antes de lavar as mãos e ir pra mesa. A mãe sempre ficava braba com as mãos sujas de terra na hora do almoço...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

enquanto a Morte não vem...

É a rua que me chama. Não tem jeito. Disposto a percorrer o vasto de toda a solidão, composto de segredos antigos e novas vontades, eu vou. É a rua que me chama. Não tem jeito. Minha fuga é a figa do pega-pega infinito que nós dois travamos. Vou me esconder no mundo. Conte até cem e nunca mais me procure. Eu, te esperarei por aí. Insólito e carregado de boas desesperanças e segundas intenções. É a rua que me chama. Não tem jeito. Sem escolha me perco nos domínios da estrada. Sigo até meus pés chorarem. Até sangrarem todos os sorrisos que eu encontrar no caminho. Até pousar sobre mim a única mulher que me quer pra sempre.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

meu primeiro doce

Se eu pudesse parar o instante e segurar o mundo
teu corpo seria parapeito, apoio da minha vontade
esse teu jeito menina, em mim ficaria fundo
no sempre da minha lembrança, tua dança, mansa.

Se a minha razão fosse hora eu perderia o relógio
perderia tudo, queimaria o tempo na fogueira dos lábios
entorpecidos de afagos, rápidos, corrosivos,
ácidos, nas luzes dos nossos olhos fechados.

No brilho dos teus metais meu sorriso se abre
entre o suor e teu cheiro, um segredo guardado
só do agora é o tempo do encontro dos nossos lábios

E se eu pudesse parar o instante eu deixaria o mundo
apoiaria teu corpo no peso do meu desejo
e voaria nas asas do teu nome. Pra sempre.

nunca tive muito tato com o sentir

Quero me livrar rápido, não sei degustar o que me chega intenso, não compreendo a espera do gosto. Sempre me disponho de outra colherada antes de engolir aquilo que me invade dentro. Não sou um bom sentidor, não sirvo pra sofredor, embora me coloque nesse ponto, quando antes de saber da paga já adivinho o preço. Adoro quando me perco. Quando erro o que aguardo sem calma. Na verdade me disponho a certeza do que não é certo, pra poder comemorar engano. Doce ilusão. Bobo sem tino de aguardo. Por isso quando me pega o que não posso negar, quando me adentra a saudade em segredo, eu, no meu movimento, assusto. Sem tempero, sem pergunta, jogo os remos n'agua e passo a usar as mãos. Um perigo pra quem não conhece o oceano. Confesso que já estive aqui, até sei quando a maré sobe, mas não queria derivar sozinho.