terça-feira, 27 de setembro de 2016

sobre a terra que segura o chão

Uma senhora velha me disse num sonho que o corpo da gente é um abrigo pra qualquer tempestade. Enquanto a terra que segura o chão levar chuva, tudo que agora é podre, que é lixo, que é sobra, serve pra florescer. Nos olhos da velha um furacão, a voz tremia de cansada, mas seguia firme. Como quem segura o mundo ela dava passos bem lentos, mas que marcavam a terra. Eu no sonho era você e meus olhos ardiam de uma dor que eu nunca senti. No estômago parecia crescer uma planta amarga que me torcia inteira. Minhas mãos eram de troncos e toda vez que eu me abraçava machucava o corpo com os espinhos que os braços carregavam. A velha me olhava fundo. Como quem fura os outros com uma espada. A lâmina em sua língua começou a cantar, e a dor foi alucinante. Me fez cair no chão, cavar a terra, querer ser pedra. Não lembro o que ela dizia, mas sentia como se uma força me puxasse pra dentro. Um canto de implosão, de fúria. Quando no meu movimento senti o amargo da boca passar e o corpo todo molhado das lágrimas e do suor parar de tremer, me senti verde. Sequei os olhos com as mãos e haviam folhas novas nos braços galhos, os espinhos seguiam, eles nunca morrem, mas a cor dos botões que se erguiam na ponta dos dedos era tão viva. A música da velha agora me embalava, feito uma cantiga de quem nina a criança com sono. Olhei nos olhos dela e vi minha mãe, vi minhas irmãs, vi muitas velhas, uma abraçando a outra, vi também um menino, olhos nos meus, ele era eu e tinha nas mãos os dedos cheios de flores. Me sorriu de longe, e abraçou um pássaro que pousou em seus galhos. Eram tantos ali naqueles olhos. Senti um tremor na pele e percebi que meu corpo estava plantado. Meu choro, minha raiva, meu ventre na terra. A tempestade de dentro parecia encontrar seu rumo. Não parou de chover, mas os raios e o vento deixaram o céu do sonho com uma cor de início de mundo. Não sei explicar. Como se tudo ainda estivesse por criar, por ser gerado e eu era a mãe da terra nova que surgia aos poucos. Olhei em volta e a velha não estava mais lá. Não havia sumido, eu ainda sentia sua presença. Talvez ela estivesse dentro da terra, onde dormia, ou quem sabe dentro de mim. Estiquei as mãos e senti a chuva quente. É possível brotar. É possível crescer sem jardim. Posso ser minha própria floresta. Carrego as velhas em mim. Trago um menino planta no peito abraçado a um passarinho. Enquanto a terra que segura o chão levar chuva, tudo que era antes pode ser diferente aqui. Não lembro se acordei desse sonho. Mas eu era você e você era a velha.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

bichano dos maletas

Dois olhos na noite fitam o beco. Caminham tranquilos pela escadaria. O silencio cortado pela música que ferve o corpo dos que dançam. Ali do Alto a noite é dele. Telhado quente de um dia inteiro, vento que atravessa a cidade e traz o som dos blocos, o cheiro do encontro dos corpos em pleno carnaval, tudo isso com a maresia de água salgada. A calma estica uma das patas e a preguiça desce o corpo magro. Quem sabe uma catita? Um gabiru ia ser tudos e tudos. É tarde e o dia foi quente, encheu o corpinho de sono. As orelhas perseguem o estrago que os "chama polícia" fazem pelas ruas. Canos estourados estralando nas ladeiras rumo aos bregas e as diversões de uma noite nessa cidade que se entrega a felicidade de um jeito tão bonito. Ali do telhado tudo que ele vê considera seu. Ama cada cantinho daquele colorido de escadarias, casas e festejos. O sono não vem, mas a preguiça inerente ao bichano o deixa tranquilo. Descansa ao som de Pablo, enquanto os pirraia conversam sobre as batalhas de pipa do dia.