sexta-feira, 10 de março de 2017

a folha

os olhos no chão e a mão nos dedos dela. 
os dois corpos ali, parados quietinhos, só o som que cruza o caminho dos ossos no vai e vem de botar ar pra dentro e pra fora, só isso. a mão subiu pelo pescoço pra encontrar os cabelos. nada daquilo parecia verdade, tinha cheiro de sonho inclusive e um ar quente que pesava em volta, como neblina, como açúcar queimado. suor de um dia todo no encontro do outro, no sabor do outro. era um lastro de festa e gosto de sal, cheiro de gente tomando a casa e eles não se sabiam mais separados. ergueu os olhos e bateu a mirada nas duas pedras pretas que o encaravam, profundas e sem nenhuma barreira. tinham cruzado a ponte que separa a gente dos outros. o muro que cobre o que cada um esconde cedeu com a chuva do encontro. nem eles sabiam como, mas agora, no fim da tarde, no fim do tempo que tinham, avaliavam os estragos da tempestade que criaram. era muita coisa pra absorver. o tempo, a falta, o gozo, a teia grande que prende o inseto e sequestra o ritmo do mundo. tinha gosto de fim aquele olhar e isso preocupava, mas também resolvia. confuso. tremiam os dedos presos nos dedos. depois de um longo tempo em silêncio, a força da pele entrou em movimento e do ar feito mágica brotou uma folha clarinha, sem flor, sem caule, só folha, era verde e clarinha. tinha os veios fracos, mas era possível ver que estava viva. caiu devagar sobre eles e colou nos dois, entre os ombros de um e o pescoço de outra. o fim da troca era já, mas agora estavam brotados. eram caules da folha, raízes cheias de lembrança. podiam seguir seus caminhos, talvez jamais tecer outra tempestade, mas sabiam da planta. sabiam da folha surgida do ar. em dias de sol forte regariam com a memória e veriam nos veios fracos da folha tudo que tinham passado. passado. passado.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

sobre o desejo e a posse

o corpo manda. não é preciso obedecer, mas ele articula bem os seus domínios. consome aos poucos as barreiras erguidas pelo pensamento e se alastra feito metal derretido nas brechas que a alma não consegue fechar. o desejo é forte e abraça. dança. gira a esfera do tempo e as escolhas pairam feito nuvens cheias em dia de tempestade. o desejo é fúria e explode em raio, é mato queimado e gosto de terra. é raiz o desejo e cresce e é lindo.

o ego comanda. simula o sol e queima a retina da nitidez. aos poucos consome o que cerca a troca e cada vez que a porta abre ele vem vento pra barrar o que não pode conter. a posse é um crime. marca fundo quem toca seu centro e abre as pernas de aranha sobre o que quer manter preso. cola ao lado do desejo e faz o caminho inverso. o desejo vibra e a posse quebra.

que o desejo siga e que a posse seja combatida, morta todo dia na luta contra o que formou o homem.

que a posse acabe, afogada num rio de desejo e amor.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

das (des)importâncias

cedinho já, quase seis. acordou, botou água no fogo e sentou na escadinha da porta pro primeiro cigarro do dia. tragada lenta, fumaça pra cima. silêncio por dentro, cidade falando baixo. aquele era o seu maior prazer, sugar com força e ver o fogo consumir o cigarro enquanto a cabeça consumida de ideia descansava antes da correria. gesto pequeno de gente desimportante, amava ser desimportante, desconhecido dos outros passava invisível pelas ruas do bairro, mas dava um valor danado aos cachorros. lhe queriam bem os bichinhos. enquanto tragava fundo, curtia também as poucas memorias quentes, eram tão poucas que naquele tempinho da manhã passava todas na cabeça e podia sentir o calor da lembrança como sentia a brasa se achegando aos dedos. acostumou ao vazio. a vizinhança pensava que sua condição de solidão era desgostosa, sofrida, difícil. mas ele não. amar dava trabalho do peito pra dentro, e sempre matou bem mais que cigarro. agarrado aos poucos fios que sobraram dos laços afetivos mal cultivados tinha uns três ou quatro amigos com quem conversava, mas um só pra beber cerveja. um senhor mais velho que ele que falava que só. sabia ser bom ouvinte e apesar de nunca ter contado nada de sua vida, marcinho o considerava seu melhor amigo, irmão de copo. sede de atenção era do que padecia marcinho. mas nunca disse isso a ele, era bom ter alguém que o considerasse, dava um afago no ego. a chaleira apitou e ele levantou pra passar o café. o melhor momento do dia acabava, a chepa ia pro lixo, a fumaça pra cima e ele pro mundo. mundo que escolheu encolher pro tamanho do quintal, assim não assustava tanto. café forte na boca e a saudade pequena de uns dias vividos com as ideias diferentes. fim do copo tudo voltava, era o gosto do café que fazia a cabeça bagunçar. hora de ir pro trampo, bicicleta e chuva. mais um cigarro, esse sem o ritual primeiro parecia menos importante. gostava de coisas desimportantes. a cidade já acordada avisou que o dia ia ser cheio, fez um afago no bichano dormindo na calçada e seguiu pela rua rumo ao centro.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

uma corrente de gente

quando a água corre forte por aqui varre tudo. limpa os caminhos, derruba barreiras, destrói o que não se molda a sua força. a gente chega no mundo sem saber vazar, fica preso na força das correntes que se achegam pela vida. é difícil. as vezes tem tronco, tem lixo, tem tanta coisa que é foda conter, difícil. é preciso aprender a vergar, como o capim teimoso que sobrevive a qualquer tempestade, como o jenipapo que não quebra quando dobra, que vira alma no bojo do peito. as águas sobem sozinhas, quando querem, como querem. é bom ter por perto alguém pra segurar na corrente, pra pedir colo. é bom ter por dentro fé pra aguentar o tranco. e se a água subiu sem avisar, amigo sigo aqui pra vazar com você. força pra seguir e a certeza de ter por perto, mesmo longe, uma corrente de gente pra segurar qualquer tempestade.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

sobre o que segue seu curso

a cobra do sonho na terra do sono.

sonhava a cabocla ser outra metade e era em seu corpo o desejo um passeio, tão forte ele vinha que o verde brilhava, na relva dos olhos floresta do amor. no corpo moreno duas almas unidas, no céu  tinha um arco de cores tão lindas. pra cabocla o tempo era uma mulher, uma árvore sagrada, raiz desse mundo. ela plantada no centro de tudo, seu olho na testa mirando pra mim. eu desaguei num choro de amor. na fonte da calma uma poça formei, minhas lágrimas viraram frutas e a fome-saudade foi alimentada. cabocla já dorme, que a terra lhe cansa, comendo sua força pra segurar tudo. eu não zelo mais seu sono de perto, mas é certo que rezo pra que ela descanse, que acorde mais forte amanhã. a semente da troca brotou uma planta pequena, um cacto que defende o espaço que quer, e aflora no tempo que escolhe pra si. de longe eu me encanto com a força da flor e entendo o que cabe aos poucos.

aos poucos.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

sobre a parte que sempre falta

dez pra meia noite.
pegou o zarco rumo a leste com uma tempestade no peito. tinha chovido pouco no dia, mas a bagunça do encontro mexeu que só. era trovão de ter perto tanta gente preenchida. era um buraco cheinho de amor e vontade de amar. no caminho de casa pensou que a saudade era já, e recitou de cabeça a lista de nomes que ela trazia. deu nó a memoria de tanta gente que carregava consigo. na madrugada o busão corre mais e se deu conta de que o ponto era o próximo quando descolou o olhar do celular. puxou a cordinha e desceu pra avenida vazia. no meio da via um homem, peita vermelha, bermuda e chinelinho, sacola na mão, meio bambo, tinha cachaça na mente e não só, chamou pra conversa e sentaram os dois na calçada. jefferson, quinze anos de rua, falou da vida, dos filhos, da ex mulher. falou das tantas cidades que já tinha cruzado, pediu cigarro "diferente esse aqui, desse eu nunca fumei, pra que lado acende?" pediu o isqueiro e demorou na conversa, queria era se dizer, ser visto, falar da solidão. ali pensei nos nomes de novo, falei baixinho todos eles. olhando a solidão de frente senti um frio na coluna, uma falta em excesso, pode alguém sentir isso? um buraco preenchido de medo agora. que nó mais difícil de desatar não é não? quando nos despedimos ele me disse que queria me ver de novo e eu que queria ver ele bem. a conversa, os encontros do final de semana, os amigos de longe, o coco pegado que a polícia pediu pra parar, a cidade vazia, a carona de zica que a amiga  amada me deu, cantando com força até o terminal. tudo isso é de encher, nada disso é vazio e porque é o vazio que sobra maior no fim do corre? sei não. sei só que o caminho é longo e ter tanta gente por perto é o que me segura em cima da parte quente do mundo, mas a solidão é um trilho que acompanha a estradinha da vida, tem um trem que volta e meia passa e ai só resta esperar pra atravessar.
a espera é foda.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

saudade azul

eu acho que meu coração anda ficando cada vez mais azul. foi forte o trovão da noite e o apito no sonho chamava pra formar a linha de caixa. eu fui, e chorei. chorei no rufo e no rulo e chorei por ver do ladinho de mim tanta gente entregando o corpo pro tambor e cantando com a fé de quem sente o calor da explosão de uma estrela. o senhor lá na frente era só energia e vibrava uma luz intensa naquele corpo marcado pela história do tempo. meu mestre cantou um lamento com a voz mais sentida que eu já escutei e fez tremer a terra de dentro.